Coluna: Papeando com o Leitor #17!


Os 13 Porquês e a Responsabilidade de Escrever para Adolescentes 



Como prometido, o mês de Setembro terá alguns posts específicos a campanha da previsão contra o suicídio. E nesse mês particularmente importante, temos convidados especiais nos nossos posts. A coluna de hoje foi escrita pelo Plínio do canal/blog Entre Séries e Livros. Esperamos que gostem e comentem.

Quando a Netflix lançou sua tão esperada série 'Os 13 Porquês', muito se discutiu a respeito de diversos aspectos que a trama levantou. Os expectadores se chocaram com o enredo cru e brutal que apresentou desde dramas de famílias disfuncionais, até bullying e obviamente o suicídio na adolescência. Hoje, conversaremos um pouco sobre a obra que deu origem a esse fenômeno, e que, consequentemente, se popularizou ainda mais entre o público jovem.

Caso, por algum motivo, você ainda não saiba do que se trata, aqui o Jay Asher nos apresenta duas histórias paralelas interligadas por uma tragédia. Conhecemos Hannah Baker, que é uma jovem que comete suicídio e envia 13 fitas para as pessoas que possivelmente “causaram” sua morte. Enquanto lemos os relatos comoventes de uma garota fragilizada, acompanhamos simultaneamente a história de desenvolvimento e amadurecimento de Clay Jensen, através de seu fluxo de pensamentos, reagindo a esses relatos. Como este texto não é uma resenha do livro, caso tenha interesse em saber mais sobre o enredo, clique aqui.

Mesmo sabendo que 'Os 13 Porquês' aborda um tema importante e possui elementos didáticos, achei problemática a forma como o autor lidou com o assunto. A ideia de mandar 7 fitas pra pessoas culpando-as por sua morte, já é bem bizarra. Some o fato de a protagonista não ter nenhum objetivo específico com isso e temos um plot arriscado com questões delicadas. Mas antes de voltar a destacar os problemas em relação ao conflito principal da história (o suicídio), é bom discutirmos sobre outros aspectos do livro, que o tornam fraco na melhor das hipóteses e negligente, na pior. Quando finalizei essa leitura, eu fiquei imaginando várias coisas que essa obra poderia ter sido e não foi, infelizmente devido ao formato limitado apresentado. Como acompanhamos duas perspectivas simultâneas durante a narrativa – o fluxo de pensamentos do Clay e a voz da Hannah nas fitas ouvidas por ele –, eu esperava ter uma amplitude maior em relação aos fatos. Isso não acontece, principalmente porque o narrador principal não agrega nada ao enredo e vai sendo descaracterizado ao longo do livro, sem personalidade. Entendo que a função do Clay na narração é de questionar e representar o leitor nesses questionamentos, mas por não ter sido explorado, muitas vezes ele soava incoerente.

O autor equivocou-se, ao meu ver, quando tratou de assuntos tão pesados de maneira superficial, isso fez com que a história perdesse grande carga emotiva. E não me entendam mal, a romantização do suicídio é um problema, mas quando propõe-se escrever sobre, o mínimo que se espera é profundidade dos personagens e dos conflitos vividos por eles. Além de pesquisa sobre a forma de abordar o assunto. Nada disso foi feito aqui.

Precisamos lembrar que essa obra se enquadra no gênero YA (Yong Adult, ou Jovem Adulto), e que sendo assim, é direcionada principalmente para o púbico adolescente... que costuma ser influenciado de maneira mais fácil que os demais.

Em alguns momentos, a história me deu a impressão de estar transmitindo um efeito contrário: em vez de conscientizar os jovens sobre os riscos da prática do bullying, ela mostra que o suicídio é uma opção para quem sofre. Em várias passagens, a protagonista procura motivos para se magoar e “justificar” o ato de tirar a própria vida. E em nenhum momento ela se responsabiliza por esses comportamentos autodestrutivos. Seguindo essa vertente, é válido ressaltar a preocupação dos profissionais de saúde, conscientes dos efeitos nocivos provocados pela abordagem equivocada e negligente do assunto.


A Organização Mundial da Saúde (OMS) desenvolveu o documento Prevenção do suicídio: um manual para profissionais de mídia, e com base nas diretrizes apontadas nele, os principais erros desta história são: informar detalhes específicos do método utilizado no suicídio (no caso da série) e atribuir culpados pelo ocorrido.

Diferentemente da série, não temos descrição da cena em que Hannah tira sua vida, apesar do autor relatar o método usado por ela: overdose por remédios. Porém, a protagonista passa grande parte do livro culpando as pessoas ao seu redor pelo que ela comentou, glorificando o ato de vingança constantemente. Obviamente, é valido ressaltar como o bullying e o assédio são usados nessa história como precursores do estado da protagonista. Contudo, esse “estado” nunca é abordado. O autor não se deu ao trabalho de falar sobre as condições mentais de Hannah, e nem fazer uma construção devida da personagem. Além da ausência de adultos e responsáveis pelos jovens nessa história (o livro se passa em uma noite, enquanto o Clay escuta as fitas). Não temos acesso às consequências, e talvez estragos, causados pela vingança da protagonista. Mais um elemento ignorado pelo autor.

TRIGGER WARNING: Além de ter bullying, slut-shaming e assédio sexual, esse livro possui uma cena de estupro. Por mais que não seja detalhada, ela existe. Acontece! Eu gostaria de ter sido avisado, portando fica o alerta! Lembrando que nem a editora que publicou a obra, acrescentou tal detalhe que não deveria faltar.

Preciso deixar claro que este texto foi baseado completamente na minha experiência de leitura e em pesquisas relacionadas ao assunto que venho fazendo recentemente. Não estou dizendo que você não pode gostar do livro, mas só levantando pontos problemáticos expostos nele.

Bom pessoal, essa é mais uma postagem do Setembro Amarelo e espero que tenha esclarecido elementos relevantes no enredo pra vocês. E vocês, o que acharam do livro? Ja lera? E a série? Já assistiram? Comentem aqui!


4 comentários

  1. Olá, Plínio.
    Entendo e respeito sua opinião, mas não concordo com tudo o que você disse, só com algumas partes. Não achei que foi romantizado em nenhum momento. Pelo menos pra mim ficou claro que o caminho escolhido não foi e nunca será o mais fácil. Mas acho que até por isso eles vão fazer uma segunda temporada onde vão abordar essas questões. Eu li o livro e não achei dos melhores com o tema, mas ainda acho que é um bom livro sim.

    Prefácio

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  2. Olá!
    Li o livro na época do Ensino Médio, e digamos que dificilmente um jovem está satisfeito nessa época (isso em relação a tudo - amigos, escola, corpo, família, etc). Comigo não foi diferente. Lembro que me senti compreendida com a leitura, e em momento algum me deu uma sensação que o suicídio era uma opção como vingança ou extermínio da dor. Na época, vi o livro muito mais como suspense ou terror psicológico (afinal, esse negócio de fitas não é brincadeira). Anos depois, já na faculdade, cursando psicologia, recebo a notícia que o livro que tanto me animou viraria série. Corri pra assistir. Não fiquei desapontada, mas também pouco lembro dos detalhes do livro. O assunto foi pra faculdade e dividiu desde estudantes aos professores: uns achavam que o assunto precisava SIM vir à tona e causar todo esse alvoroço porque ESTÁ ACONTECENDO, e outros acreditam que a série PECOU GRAVEMENTE em deixar tudo tão explícito e principalmente não ter uma SAÍDA para Hannah, parecendo que a mensagem é VOCÊ REALMENTE ESTÁ SOZINHO. Bem, eu interpretei muito mais a série para o público pais e professores, acho que esses precisam entrar nesse cenário jovem que muitas vezes é PERVERSO e SOLITÁRIO, e tentar entender e acolher tudo isso. Mas concordo que um público que está passando por problemas como o de Hannah não encontrará um efeito positivo ou acolhedor. No máximo, verá na cena mais explícita (suicídio) que é doloroso, que afetam pessoas que você não gostaria de afetar. Enfim, um diálogo extenso pode sair dessa série. E acho muito legal você ter citado sobre este tema no seu blog.

    abraços!
    eu-ludmilla.blogspot.com

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  3. Interessante seu ponto de vista. Esse é um assunto bem complicado. Uma série por si só é um entretenimento, então acho que esse tipo de assunto talvez não deveria ter sido abordado nesse formato..

    www.vivendosentimentos.com.br

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  4. Olá!

    Eu não cheguei a ler o livro, só assisti a série. Gostei bastante e comigo teve a função de conscientizar, mas acredito que a série tenha um efeito negativo em quem esteja com a saúde mental abalada... Realmente é complicado falar disso, é um assunto muito delicado e precisa ser tratado com cuidado mesmo. Gostei do post!

    Beijos,
    http://viciadas-em-livros.blogspot.com.br/

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