Resenha #177 - O Conto da Aia!







Título: O Conto da Aia
Autora: Margaret Atwood
Editora: Rocco
Ano: 2017
Especificações: Brochura |368 páginas
ISBN: 
13: 9788532520661
 Sinopse
Escrito em 1985, o romance distópico O conto da aia, da canadense Margaret Atwood, tornou-se um dos livros mais comentados em todo o mundo nos últimos meses, voltando a ocupar posição de destaque nas listas do mais vendidos em diversos países. Além de ter inspirado a série homônima (The Handmaid’s Tale, no original) produzida pelo canal de streaming Hulu, o a ficção futurista de Atwood, ambientada num Estado teocrático e totalitário em que as mulheres são vítimas preferenciais de opressão, tornando-se propriedade do governo, e o fundamentalismo se fortalece como força política, ganhou status de oráculo dos EUA da era Trump. Em meio a todo este burburinho, O conto da aia volta às prateleiras com nova capa, assinada pelo artista Laurindo Feliciano.
Cortesia Grupo Editorial Rocco

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AVALIAÇÃO PESSOAL
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Eu sou um grande apreciador da atuação feminina, independente que seja na TV ou no cinema, sempre me esforço para acompanhar bons desempenhos das mulheres, pois gosto de como elas expressam os seus sentimentos em frente a uma câmera. Com isso, em 2017 fui pego de surpresa com o lançamento de 'The Handmaid’s Tale', que conseguiu arrebatar quase todos os prêmios para o qual foi indicado no Emmy, além de conseguir faturar todos os prêmios de atuação feminina em série dramática. Ver todo esse reconhecimento dado a série me deixou curioso para assisti-la, então, consegui devorar os dez episódios em dois dias, mesmo ficando horrorizado com a situação das aias ao fim de cada episódio que terminava. É uma série muito bem produzida e, caso o Anderson me dê a oportunidade e vocês tenham interesse, posso comentar um pouco na coluna daqui do blog. No entanto, fiz todo esse percurso cronológico, pois para falar do livro precisava nortear vocês o caminho que tomei até conhecer a obra da Margaret Atwood e preciso dizer que o livro é muito mais inquietante que a série.


O cenário de 'O Conto da Aia' retrata uma crise de natalidade no mundo, onde entre as diversas atitudes para mudar esse grave problema social, a sociedade americana é tomada por um regime teocrático totalitário e é instaurada a República de Gilead, ocasionando grandes mudanças na organização social. Essas mudanças são descritas pela perspectiva de “Offred” (“Of Fred”, no inglês, “De Fred”), uma aia, que narra as diversas mudanças em sua vida pelo fato de ser uma mulher fértil. Em Gilead, todas as mulheres férteis foram recolhidas pelo governo e foram “educadas” para servir famílias da elite de Gilead no propósito de engravidar, orientadas por uma passagem da Bíblia envolvendo Jacó, Raquel e Bila (Gêneses, 30:1-3).

No entanto, além da situação nada agradável das aias, Offred conta sob sua perspectiva a vida de outras mulheres do cenário que estão expostas a situações de submissão, como as mulheres da “Casa de Jezebel”, as Marthas e até mesmo a vida das esposas dos comandantes. A empatia da narrativa de Offred nos permite acessar um mundo em que a submissão/humilhação/escravidão feminina é comum, não muito distante da nossa realidade mundial, pois mesmo com homens sofrendo represálias e castigos na sociedade de Gilead, nada se compara a tudo que é imposto e causado as mulheres do cenário.

É possível compreender a narrativa como uma grande apresentação de cenário, pois a forçosa passividade da personagem dentro dos acontecimentos faz com que ela seja uma ótima observadora, já que lhe é a única coisa permitida de forma limitada (não podemos esquecer os chapéus) sem retaliações. No entanto, essa pressão do cenário sobre a narradora é algo que agrega um valor imenso a obra e traz aos leitores muito empáticos uma sensação terrível, porém, uma experiência única. Atwood evidencia em Offred as atitudes e comportamentos exigidos das mulheres da Idade Média, que ainda são cobradas até os dias atuais.

'O Conto da Aia' é de meados da década de 80, mas a obra se mostra bem real e voltou com grande força nos últimos tempos, pois a ascensão de governos ultraconservadores ao poder trouxe esse medo às mulheres. Esse medo não está relacionado à crise de infertilidade e ao treinamento de aias (caso chegasse a esse ponto, pode reiniciar o mundo que deu tudo errado), mas o receio está ligado à caçada aos direitos das mulheres, que é por onde se inicia as ações dos líderes de Gilead para a instauração da nação.

Segundo o que estudei no meu curso, pode-se dizer que a obra de Atwood usa a literatura para denunciar o tratamento ofertado às mulheres durante muito tempo, que pode voltar a ser uma realidade hegemônica a qualquer momento diante do quadro apresentado em diversos países do mundo. É um livro que traz ao leitor uma sensação de agonia, pois a prisão física e psicológica imposta a Offred causam um sentimento de impotência. Não sou mulher para compreender em totalidade as sensações intencionadas pela autora na escrita do livro, porém, tudo o que minha empatia permite sentir, fez com que minha admiração pela obra crescesse muito, pois é algo que transmite para o leitor o necessário para compreender minimamente as dificuldades passadas pelas mulheres na sociedade.

Minha avaliação da obra não poderia ser menos que cinco estrelas, pois 'O Conto da Aia' é um livro não somente importante pelo seu aspecto literário, mas principalmente pela reflexão que pode proporcionar aos seus leitores. A leitura lenta em alguns momentos pode funcionar como aspecto negativo, porém, isso intrínseco a estética do enredo, pois os dias não passariam mais rápidos se você vivesse em uma rotina diária completamente desagradável. As sensações suscitadas pela trama/narrativa causam choque, mas são sentimentos importantes para humanizar o leitor sobre uma causa e um grupo muito importante para a continuação da raça humana.


Margaret Atwood é uma escritora canadense: romancista, poetisa, ensaísta e contista, foi galardoada com inúmeros prêmios literários internacionais importantes (Arthur C. Clarke Award, Prince of Asturias, Booker Prize). Recebeu a Ordem do Canadá, a mais alta distinção em seu país além de ter sido indicada várias vezes para o Booker Prize - tendo o ganhado no ano 2000 com o romance O Assassino Cego (The Blind Assassin, 2000). Outros romances de sua autoria são Olho de Gato (Cat's Eye, 1988) e Oryx & Crake (2003). Sua obra é conhecida por mesclar uma fina veia irônica e lúdica com uma aguçada perspicácia para questões contemporâneas - como as relações de gênero e o meio ambiente.



5 comentários

  1. Oi Glauber, eu não li ainda o livro, mas ouço falarem muito bem da série. Acho que a narrativa lenta é condizente com o tipo de história contada, uma trama bem forte pelo que parece!

    Bjs, Mi

    O que tem na nossa estante

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    1. Este comentário foi removido pelo autor.

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    2. Olá, Mi!

      Como já passei pela experiência de ambos, posso te dizer que é muito forte mesmo e super indico, pois é uma narrativa bem escrita que valoriza os mínimos detalhes da narrativa em sua construção.

      Quando lê ou assisti, me diz o que você achou!

      Abraços!

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  2. Olha, eu tô beeem curiosa pra ler esse livro e assistir essa série desde que ele começou a ser assim comentado. Sério, acho que vou ter que dar uma chance pra eles. E logo!

    Beijo!
    www.controversos.com

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  3. Olá, Caroline!

    Faz isso! Pode fazer... Em questão de qualidade estética e literária, o livro é muito bom e a série, eu não preciso nem falar pois o Emmy fez questão de premiar a série com todas as honras possíveis.

    Abraços!

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